• Paula Teixeira

Alimentos não são “bons” ou “ruins”

Você acha que existem alimentos que são bons e alimentos que são ruins? Se sim, esse texto de hoje vai te ensinar porque essa estratégia só piora as suas escolhas alimentares.

Queria iniciar te dizendo que comer açúcar não faz de você uma pessoa ruim, principalmente quando desfruta de um brigadeiro, e isso não vai prejudicar o seu corpo de forma alguma.

Assim como tomar sucos verdes, ou comer amêndoas, não fará de você uma pessoa melhor, ou lhe trará a chave para a saúde.

Os alimentos devem ser consumidos como fonte de nutrição e prazer. Pensar nos alimentos como algo “bom” ou “ruim”, é tão contraproducente que hoje pessoas desistem de cuidar de sua saúde e acham que colocaram todo o esforço dedicação a se sentir bem simplesmente após comer um pedaço de chocolate e achar que isso "estragou tudo".

Quem nunca ouviu ou falou: "ah estraguei todo meu esforço dos exercícios, de comer vegetais, de comer mais saudável porque comi esse chocolate, agora vou comer exageradamente e volto a dieta segunda pra nunca mais sair dela".

No cenário atual, causado pela cultura da dieta, pessoas não conseguem consumir alguns tipos de comida sem sentir culpa ou vergonha, como se tivessem fazendo algo errado.

Não há motivos para vergonha

Não se deve ter vergonha do que você come, a menos que você esteja batendo em alguém para comer, ou se você roubar a comida de alguém do trabalho para comê-la.

Sentimos vergonha quando pensamos estar fazendo algo considerado errado. E o que tem de errado em um brigadeiro que nos faz sentir tão mal?

Alimentos “ruins”

Grande parte do que nos leva a pensar que um alimento é “ruim”, é a cultura da dieta que encaixa alguns alimentos como vilões, e outros como o santo graal da saúde.

Embora exista uma relação entre a alimentação e a saúde e ela seja bem estreita, a falta de apelo pelo bom senso e a forma como os meios de comunicação descrevem os fatos, faz com que as pessoas tenham menos informação ainda, sobre a verdadeira "saúde" dos alimentos.

Muitas substâncias podem fazer mal, quando consumidas em grandes quantidades, o que não quer dizer que não possam ser ingeridas em nenhuma quantidade.

Porque a comida não deveria ser classificada

  • Boa X ruim

  • Limpa X suja

  • Tóxica X pura

Esse tipo de linguagem provoca pânico nas pessoas e neuroses.

Esse tipo de classificação se tornou uma obsessão e com isso, uma hierarquia moral da comida também vem sendo criada.

As pessoas estão ficando com uma relação com a comida que se assemelha a de uma seita. Só que tudo isso acontece, para preencher o que não está sendo alcançado através da comida.

Qualificar alimentos como bons para elevar o significado de comer bem ao extremo nos afasta de um relacionamento equilibrado com a comida.

Embora esse tipo de atitude funcione para algumas pessoas comerem mais saudável, para a grande maioria o efeito é reverso.

Eu não sei você, mas meus pacientes contam a mesma história: no dia que resolveram "estar de dieta" e não comer os "alimentos proibidos" a vontade por esses alimentos aumentaram. E parece que todo mundo em volta aparece com as gostosuras que prometeram ficar longe. Porquê isso?

Viés cognitivo: me digas o que não posso e isso que eu vou querer

Uma serie de pesquisadores encontraram um tipo de comportamento humano que ficou conhecido como "restrição de pensamento". Diversos estudos demonstram que quando estamos proibidos de algo ou alguma coisa nosso cérebro tente a colocar mais atenção no que foi proibido.

Mulheres foram convidadas a não pensar em chocolate enquanto criavam um menu de sobremesas e depois foi oferecido a elas chocolate. E sim, as que foram convidadas a não pensar no chocolate comeram mais. E as que já achavam que chocolate era alimento proibido comeram mais.

Ortorexia

Parte desses apelos em comer de forma pura e virtuosa, se torna ainda mais problematica quando evolui para um transtorno alimentar, como a ortorexia.

Conheça a ortorexia: Foco obsessivo em comer “saudável”, definido um conjunto de crenças com detalhes específicos variados; marcado por angústia exagerada em relação às escolhas alimentares percebidas como deletérias; pode resultar em perda de peso, mas o objetivo principal não é estético, mas sim uma busca pela saúde ideal.

Caracteristicas:

  • Crenças distorcidas na promoção da saúde;

  • A violação das regras dietéticas autoimpostas provoca medo exagerado de desenvolver alguma doença, sentimento de que está impuro e/ou sensações físicas negativas, acompanhadas de ansiedade e vergonha.

  • Comportamento compulsivo e/ou preocupação com práticas dietéticas restritivas;

  • Adoção de restrições alimentares progressivas que podem incluir a eliminação de grupos alimentares inteiros e/ou jejuns e “lavagem”, usados como purificantes ou desintoxicantes. Embora essa prática comumente leve à perda de peso, o desejo de perder peso é ausente, secreto ou subordinado aos ideais sobre alimentação saudável.

  • As práticas dietéticas podem incluir o uso excessivo de “suplementos alimentares”.

  • O desempenho e/ou corpo atlético podem ser indicadores de aspectos de saúde.

Saúde é equilíbrio

O ambiente alimentar é muito mais complexo do que o mocinho e o vilão. Hoje, saber se relacionar com os alimentos é fundamental e ajuda muito mais do que contar calorias.

O que contribui de verdade para saber COMO fazer escolhas alimentares é o conhecimento de como cada alimento desperta pensamentos, sentimentos e sensações corporais em você.

Comer salada também é gostoso, assim como sucos verdes. E comer bolo, brigadeiro e doces tem seu lugar.

Não existem dietas milagrosas, assim como não há alimentos que intoxicam o organismo. Nutrição e cultos deveriam ser coisas completamente distintas, e os valores morais de “bom” ou “ruim” não se aplicam dentro da cozinha que precisa ser um lugar sem neurose e sem paranoia.

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©2019 by Dra. Paula Teixeira Mindful Eating e Autocompaixão.
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